Nude I, Spray and Acrylic on canvas, 120 x 90 cm, 2019.
Morando em uma cidadezinha há 3 horas de distância do centro, com 20 anos de idade encontrei na prostituição uma solução para conseguir pagar os custos de frequentar às aulas na UFRJ. Eu que recém tinha sofrido um estupro, não durei nem dois dias no emprego já que sentia muita dor durante o ato. Então, a necessidade me fez ter a ideia de ir  trabalhar em frente ao metrô do Largo da Carioca fazendo caricatura das pessoas por 1 Real. Teve dia de eu conseguir fazer até 50 desenhos. Logo esse trabalho foi bom pra mim e eu consegui dividir com o namorado um kitnet no miolo da favela de Maguinhos que na época tinha na Leopoldo Bulhões o apelido de Faixa de Gaza, de tantos eram os conflitos com a polícia. Todo dia morria um e a parede do meu beco era cravada de balas. Eu queria que alguém tivesse me mandado esse relato, mas esse é meu mesmo, para que todos saibam de onde vem minha falta de adaptação no mundo. Minha mãe até hoje ainda fantasia que me criou como uma princesa e quem me olha agora tão bem tratada, vestida e alimentada, não sabe que a noite grito e acordo em pânico de não sei o quê. Agora que todos sabem, aquele homem que me persegue na internet não tem mais segredos para me ameaçar. 
Nude I, Acrylic and spray on canvas, 50 x 40 cm, 2019.
Nude II, Acrylic and spray on canvas, 50 x 40 cm, 2019.
#RetratosRelatos #9 , Spray and Acrylic on canvas 20 x 30 cm , 2019.
Após as férias do meio do ano durante meu 1º ano do ensino médio, num colégio federal de elite do Rio de Janeiro, meu professor de física, surpreso com a minha presença em sala de aula me fez a seguinte pergunta: "Você por aqui????!!!!". O questionei, já que vinha há 6 meses tendo aulas 2x na semana com ele, na mesma sala, na mesma turma. A resposta que ganhei é que "todo ano tem um que desiste". Naquele momento, senti minha cor, minha raça, minha identidade sendo atrelada ao fracasso por alguém que deveria só me incentivar. Me fez um mal danado. Por que logo eu desistiria da escola? Dois anos depois, estou na melhor instituição de ensino da minha área. A pele preta quando não ocupa lugares subalternos gera espanto. 
#RetratosRelatos #12 , Spray and Acrylic on canvas 120 x 90 cm , 2019.
Sou uma mana preta, uma mulher intelectual de origem pobre, colonizada e auto-descolonizada à todo instante. Passei pelo abuso sexual infantil, comum nos anos 90 no lugar onde cresci, e acho o que passei era uma coisa que as pessoas se esforçavam muito pra não ver, pois era muito óbvio que muitas crianças estavam sofrendo por isso. Mas, quem defende as crianças dos adultos? No meu lar também a agressão ao corpo da minha mãe foi como se tivesse sido no meu, e a casa quebrada, material e simbolicamente, fez toda essa ilusão de família nuclear se diluir nas minhas experiências.  
Nada disso me empedrou, eu segui fluindo. Hoje, sou doutoranda na Fiocruz, sou cientista social de formação, e conquistei minha independência através do meu intelecto, da força do meu trabalho, da minha fé em Oyá, e da força de minha mãe e das mulheres da minha família. Uma família grande e preta, cheia de sementes plantadas nesse solo, que é farto também de nossas raízes.

#RetratosRelatos #15 , Spray and Acrylic on canvas 70 x 50 cm , 2019.
#RetratosRelatos #Clarice , Spray and Acrylic on canvas 40 x 30 cm , 2019.
Não quero que o meu entusiasmo por Clarice tornem precipitadas estas palavras, pois hora, apenas este ano, já foram quatro encontros em três cidades diferentes: Nova York, Veneza e São Paulo; e, até passamos meu aniversário juntas. Já foi tempo o suficiente para saber que possuímos afinidades íntimas de pensamento.
Clarice é uma estrangeira em seu próprio lugar. Poderia afogar-se na soberba de seus privilégios brancos como fazem seus pares, mas seu protagonismo é como dos líderes de vanguarda, transferindo o seu poder para o outro de menos posses. O líder não é aquele que decide, mas que dá ferramentas para que todos possam participar das decisões em comum. Clarice é boa. Promove o potencial de nós mulheres, negros, indígenas, LGBTs, e todos que proponham cultivar um mundo mais igualitário e sadio para nossas famílias.
As vezes ela fica nervosa, não bate os pés, mas franze os lábios; eu já sei: aconteceu algum absurdo. Vamos nos retirar, e de jeito nenhum nos sujeitar a isso. Alguns dizem que é radical, mas a  verdade é que se todos tivessem o posicionamento de Clarice, a pressão faria que equívocos não violentassem mais ainda, nós que já nascemos com nossos direitos violados.
Cada passo que ela dá na cidade, nasce uma árvore frutífera que servirá novos líderes em um futuro alí na frente. Clarice nos alimenta a fé de ser feliz.
Panmela
#RetratosRelatos #3 , Spray and Acrylic on canvas 30 x 30 cm , 2019.
#RetratosRelatos #2 , Spray and Acrylic on canvas 50 x 40 cm , 2019.
Eu tinha 16. E me apaixonei pelo menino mais gato da escola. Olhos verdes, moreno, mais velho, Marcos.
Eu queria tanto dar uns beijos que aceitei ir pra casa dele depois da aula. No quarto de paredes azuis que lembro até hoje, a gente transou. Eu quis. Eu só não sabia que ele tinha filmado tudo. E eu não soube durante muitos anos que ele havia registrado a nossa transa. Tempos depois em um site da internet me vi ali nua dentro daquela prisão de paredes azuis. Me reconheci e não consegui ver até o final. Não acreditei. Chorei meses e orquestrei tantas vinganças. Quis matar, quis morrer. Senti pena de mim. Depois não fiz nada além de abraçar quem eu era aos meus 16 e me fortalecer por ter chegado até aqui. Ele é um merda, fim.

#RetratosRelatos #4 , Spray and Acrylic on canvas 30 x 30 cm , 2019.
Match no aplicativo. Eu viva um relacionamento aberto e podia ficar com quem quisesse, eis que dei match com um boy padrão, branco, classe média alta, estudante de direito na maior universidade particular de Fortaleza. 
Por 8 meses nos relacionamos, sem jamais ele me ter como namorada. No meio desse tempo terminei a outra relação em que estava, por outros motivos. Viajavamos, saíamos, mas ele sempre numa postura distante, nunca me tratou com afeto em locais públicos. No entanto me chamava pra ir pra casa dele. E por horas eu ficava lá em silêncio, por vezes estudando artes (sou artista), enquanto ele estudava pra algum concurso ou preparava sua comida fitness, o ponto era que esse silêncio não era acordado, ele não gostava de conversar, não demonstrava sentir nada... mas pra não dormir sozinho me pegava em casa com frequência só pra ter com quem fuder. 

Terminei... Por uma semana sofri e acabou aquela paixão, me vi numa imensa decepção. Comigo por ter passado por isso e com ele por ter sido tão absurdo em manter alguém por tanto tempo assim, só alimentando esperança. 

Um mês depois ele assumiu um namoro... com uma branca. 
#RetratosRelatos #1 , Spray and Acrylic on canvas 50 x 30 cm , 2019.
Então, minha história não foi uma história muito positiva. Morava junto com o pai dos meus dois filhos desde antes de ser mãe. Meu filho mais velho tinha 4 aninhos e o caçula pouco menos de 2. Eu era muito nova e achava q era feliz com aquele relacionamento abusivo, onde ele não me deixava ir à praia, rasgava minhas roupas, me agredia na frente dos meus bebês. Certo dia, decidi q não queria mais aquilo p mim. Mesmo com todos falando q seria loucura sair da casa (q era dele) com dois filhos pequenos, tendo menos de 24 anos eu estava decidida em sair em busca da minha felicidade e liberdade. Fui morar com ele qdo tinha apenas 18 anos, fui mãe com 19 e troquei meus sonhos por uma família... cuidar da casa, filhos e marido. Ele nunca me respeitou e agora, olhando p trás, nunca me amou tb. Me traía, mentia, agredia, ofendia.
Bom, eu já não estava mais tendo relações sexuais com ele, pq estava com nojo do homem que havia se tornado, ou o homem q sempre foi, mas q só fui perceber ali, depois de alguns anos. Comecei a procurar um lugar p alugar e encaixotar minhas coisas p me mudar. Ele, certo dia, me jogou na cama, rasgou minhas roupas e me comeu a força. Eu gritei, bati, mordi.. e chorei, chorei muito, por ter sido invadida de forma tão escrota, violentada. Depois q ele terminou, disse “vai engravidar de novo, aí quero ver vc ir embora... gorda, solteira, mãe de três”
Ele estava certo, eu engravidei de novo, mesmo tendo tomado a pílula do dia seguinte. Não tinha apoio, ou dinheiro, ou coragem ... sai de casa grávida do terceiro filho dele. É, “filho não prende homem”, muito menos mulher.
Desde então, crio os meus três filhos sozinha. Ele sumiu por uns 8 anos, meu filho caçula veio conhecê-lo tem pouco tempo. Mesmo assim, um pai ausente. Na época, a mãe dele disse q eu era louca, que ele era  “meu marido” e que aquilo não havia sido estupro. Falei com meus pais, eles infelizmente compartilhavam do mesmo pensamento. Eu era muito nova e muito desinformada. Por um momento, me culpei pelo que havia acontecido. Certa vez, quando uma mãe de uma amiga de infância veio me perguntar pq eu tive o terceiro filho, que aquilo era loucura e eu contei p ela a minha história, ela brigou comigo, disse q era uma vergonha sair por aí contando uma história dessas...
Eu conheci um movimento de mulheres grafiteiras feministas, a Rede Nami e pela primeira vez parei p escutar de verdade a causa. Abriu minha mente de uma maneira valiosa.
Não, eu não fui a culpada e nem fiz nada de errado. Sim! Aquilo foi estupro sim!
Eu acho q o acesso à informação em prol das mulheres, é muito importante. O feminismo tem enorme valor, na luta feminina, não por diretos iguais, mas pela liberdade de sermos quem quisermos ser, sem ninguém nos invadindo, humilhando e destruindo física e psicologicamente.
Hoje eu me arrependo demais de ter escolhido pras pessoinhas q mais amo nessa vida, um pai tão babaca e egoista como o deles.
A minha vida é a maior loucura, para criar meus três filhos. Três meninos, que um dia se tornarão homens. Estou sempre conversando com eles, fico pelada em casa na frente deles sem problemas (ensino-lhes q são apenas peitos, assim como os deles), temos um diálogo aberto em casa. Os amo demais e procuro sempre criá-los de uma maneira q entendam q somos de verdade todos iguais... mulheres, homens, trans, homossexuais, etc.
Eu acredito que o feminismo já conquistou muito, só que ainda tem-se muuuuito mais para conquistar. Hoje, eu infelizmente não faço muito para ajudar, só fico “militando” às vezes em roda de conhecidos, ao conversar, compartilhando as coisas que vivi e aprendi.
Viver não é fácil, q cabeça qse sempre dá um nó. Mas eu nao sou de desistir fácil. Os tempos são difíceis, mas tudo há de cê acertar. ♥️
#RetratosRelatos #18 , Spray and Acrylic on canvas 80 x 60 cm , 2019.
#RetratosRelatos #19 , Spray and Acrylic on canvas 120 x 90 cm , 2019.
#RetratosRelatos #20 , Spray and Acrylic on canvas 120 x 90 cm , 2019.
#RetratosRelatos #7 , Spray and Acrylic on canvas 120 x 80 cm , 2019.
#RetratosRelatos #21 , Spray and Acrylic on canvas 50 x 40 cm , 2019.
#RetratosRelatos #13 , Spray and Acrylic on canvas 50 x 40 cm , 2019.
Eu o idolatrava e por isso ele escolhia a hora e a forma que iria me encontrar, sempre escondido. Pros amigos mais íntimos, deixava no máximo subentendido. Por saber que me tinha nas mãos, pegava várias, na minha frente e me olhando. Ele sabia que me feria - a gente conversava entreolhares fixos - por isso, no dia seguinte ou até na mesma noite, marcava comigo. E eu ia. 
Eu permiti isso por 5 anos! Eu soube que ele começou a falar de mim pros amigos, imaginei que seria com carinho, e ele me apelidou de CAMÉLIA. Romantizei, de dentro do poço que caí, fingindo pra mim mesma que aquilo era um elogio, um carinho, uma ode à flor perfeita! Mas ao invés de molas, o poço tinha areia movediça: Camélia era o nome que a novela da vez dava às putas! Minha ficha só caiu quando ele começou a namorar uma mina que eu não conhecia mas sabia que era muito querida e legal: antes eram todas inimigas! Putas! Culpadas! 

Ele me chamou e eu não mais fui. "Que absurdo! Como assim não vai?". Não fui. Decidi pela razão, apesar dele derreter meu coração e minha alma apenas com o olhar. Ele começou a fazer coisas que nunca havia feito antes: 
Puxou conversas sobre planos e sobre a vida. Eu disse não. Falou de mim pros amigos e colocou-os pra me convencer que ele me amava. Eu disse não. Falou comigo na rua na frente de outras pessoas e segurou minha mão ao pedir pra conversar. Eu disse não. Foi na minha casa se declarar, me chamou pelo nome, foi atendido pelos meus pais. Eu disse não. Me parou na frente da família dele e me chamou de "Meu Amor" pq essa era a migalha, digo, cartada final. Eu disse não e eu fui encontrar com a namorada dele, a mina legal. Ela terminou com ele. Ficamos muito amigas, até hoje! Hoje, se ele nos vê, nos fuzila com os olhos. 
Abri mão das migalhas, que eu colecionava com tanto primor, muito tarde! Com isso me perdi e nunca mais quis amar ninguém, nem a mim! Minha auto-estima até hoje é trabalhada no psicológico pra que, com esforço, eu a consiga com um conta-gotas! É isso que as migalhas fazem pras Camélias. 
#RetratosRelatos #5 , Spray and Acrylic on canvas 120 x 90 cm , 2019.
#RetratosRelatos #6 , Spray and Acrylic on canvas 120 x 90 cm , 2019.
#RetratosRelatos #5, Spray and Acrylic on canvas 120 x 90 cm , 2019.
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