
Das Cavernas À Galeria
Não é uma discussão nova mas ainda sim é extremamente interessante e atual a questão de que o graffiti se sustente e ainda possa ser considerado graffiti no momento que ele abandona as paredes da cidade e ganha novos suportes.
Mas na verdade o que é o graffiti? Seria ele todo tipo de pintura com spray proveniente da cultura Hip Hop que nasceu em Nova York no final da década de 60 ou podemos considerar graffiti toda a parafernália que se desenvolveu hoje nas ruas das principais cidades do mundo?
No estágio do Paleolítico, os homens pintavam animais nas paredes e nos tetos das cavernas com a supertição que assim teriam uma caça bem sucedida. Como o graffiti hoje, através daqueles desenhos os homens expressavam seu modo de pensar, sentir a vida e divulgar suas idéias. No império Romano, aonde foi criado todo nosso conceito ocidental de democracia, as pareces dos templos eram usadas com o mesmo propósito de divulgação de idéias e expressão do povo com graffitis feitos a carvão, chamando a atenção para o fato que a palavra “graffiti” teve origem e concepção nesses atos.
Se formos pensar bem, muito antes ainda dos romanos, esta mesma forma de expressão já era usada por egípcios, mesopotâmios e gregos, que mesmo não tendo o objetivo de protestar, usavam as paredes de suas residências, templo e prédios públicos para retratar o estilo de vida da sua gente e sua época.
Com a Revolução Mexicana de 1910, um importante momento da história cultural desse país surgiu com muralistas como Diego Rivera, José Clemente Orozco e Davi Alfaro que constituíam o grupo mais atuante e criativo que formava a vanguarda cultural revolucionária do México, com forte sentido do valor social de sua arte. Esses artistas se propunham a pintar para o povo possibilitando uma arte pública e coletiva que rompia com o individualismo da pintura de cavalete, com uma produção cultural que transmitia uma interpretação da história mexicana marcada pela denúncia dos ricos e poderosos, com fortes imagens de índios oprimidos e explorados pelo violento colonizador apoiado na Igreja Católica, apoiando às causas da revolução e transmitindo idéias nacionalista às pessoas mais humildes, aonde a produção de obras em locais públicos para que todos a pudessem ver era uma forma de impedir que estas não acabassem em propriedade de algum rico colecionador. No Brasil temos Candido Portinari que recebeu uma grande influência desses mexicanos produzindo grandes painéis que dialogavam com o povo contando a história do Brasil. Hoje temos muitos artistas do graffiti que trabalham, mesmo que com técnicas diferentes e sem a ajuda da revolução, ainda sim com uma ideologia similar a desses antigos grandes mestres.
Com o surgimento da cultura Hip Hop o graffiti tomou uma forma específica e passou a ter a escrita de “nomes” e sua propagação com o público da rua como finalidade principal usando desenhos apenas como enfeites.
Assim como o Taki 183, um dos primeiros grafiteiros de nova york que ficou muito conhecido por uma reportagem no New York times que intitulava “Take 183” e contava sua história como forma de apresentação desse estranho novo movimento, muitos outros passaram a escrever seus nomes pela cidade descobrindo que a linha de trem era o meio mais rápido de tal divulgação já que ao pintarem um vagão em determinado bairro, eles sabiam que este passaria por todas as linhas, em todos os cantos da cidade. Com o tempo e a popularização das tags, estas começaram a ganhar enfeites, como setas, asteriscos, estrelas e símbolos que marcassem um estilo próprio. Era necessário dar uma valor artístico maior às letras e o que levou a ganharem novos contornos, novas formas e cores surgido os bombers, pieces, Wild Styles e todos os outros estilos de letras que conhecemos hoje.
Hugo Martinez criou um grupo chamado “United Graffiti Artists” que estabeleceu um novo padrão ao Graffiti levando os melhores grafiteiros de Manhattan, Bronx e do Brooklyn a desenvolver seu trabalho com Artes e estabelecendo uma ponte com mercado de arte nova-iorquino. Assim o graffiti, intitulado agora de arte graffiti, foi levado à mídia entrando em galerias de arte de renome e fazendo turnês pela Europa.
No Brasil a arte grafite fez o percurso inverso e chegou antes mesmo ao graffiti baseando na cultura Hip Hop nova-iorquina, através de artistas como Keith Hanring que expôs na bienal internacional de São Paulo em 1983 e influências como a arte pop de Andy Warhol. O stencil se propagou em São Paulo tendo como pioneiro Alex Vallauri ganhando status de arte e se diferenciando cada vez mais da “Pichação”.
A pichação é um movimento parecido com os dos taggers, porém com força e cultura própria diferenciada do graffiti no Brasil. A pichação começou em São Paulo e no Rio de Janeiro como forma de manifestação política contra a ditadura militar que se iniciou na década de 60 sofrendo mutações e criando uma cultura que prioriza o nome seu executor ou das gangs que possuem o objetivo de distribuírem a maior quantidade de pichações por toda a cidade principalmente nos pontos mais altos e difíceis. Hoje a cultura pichação existe nas principais cidades do Brasil diferindo uma das outras pelas diferenças da própria cultura e também do tipo de escrita. Como podemos exemplificar o Rio que possui uma escrita parecida com a Tag do graffiti aonde no início da década de 80 era redonda, contínua e rítmica e hoje mais simbolista porém com um mesmo ideal em que o pichador escreve seu nome que tem maior força pessoal e como complemento escreve em tamanho menor a sua “sigla” que é o nome do grupo de pichadores como é falado no Rio. Em São Paulo temos o Tag reto, muito famoso e elogiado no exterior já com 2 livros destinados a esse assunto publicados em língua inglesa e vendidos em vários locais do mundo. Caracterizado pela letra comprida e pontiaguda aonde intitula o nome do grupo que chamamos assim de “grife”, podendo esta mesma grife “chefe” abraçar várias subdivisões menores.
Os pioneiros do Hip Hop em São Paulo primeiramente dançavam break e se encontravam em uma rua de grande movimento no centro e ali tinham acesso a discos e filmes que os estimulavam ao desenvolvimento e conhecimento da cultura Hip Hop. Nesta época, também dançando Break grafiteiros como Binho e “Os Gêmeos” se interessaram pelo graffiti e com o estimulo de filmes como “Beet Street” e “Wild style” surgiu esta cultura em São Paulo da mesma forma que também estes mesmos filmes ajudaram a cultura do graffiti se propagar por todo o mundo.
No Rio de Janeiro o graffiti surgiu com a chegada da cultura Hip Hop a um pouco mais de 10 anos aonde encontros como o “Não piche, grafite” reuniram a maioria dos pioneiros no Rio que posteriormente continuaram em contato através de uma festa de hip hop semanal em que todos freqüentavam. Desta época surgiram nomes como o do Grafiteiro Ema que ficou conhecido e ajudou a propagar a cultura não só através de suas pinturas na rua, mas também do seu trabalho com o grupo “O Rappa” aonde, continuando o trabalho já iniciado pelo grafiteiro Speto de São Paulo, fazia graffitis ao vivo e exibição de imagens por todo o Brasil e assim como a Nação Crew, grupo de grafiteiros do subúrbio, participava de projetos sociais e oficinas estimulando crianças das comunidades cariocas a ingressarem nesta forma de expressão e a usa-lo com meio de transformação contra as drogas e o tráfico formando assim vários nomes da geração do graffiti carioca atual.
No Brasil, principalmente no Rio e em São Paulo ao contrário do resto do mundo a população gosta, apóia e admira o movimento Graffiti e todos podem pintar sem preocupação com a polícia desde que siga regras culturais em que o graffiti é produzido e em locais compatíveis ao mesmo. Em Salvador a prefeitura estimula e oferece tinta aos grafiteiros como forma de limpar a cidade das pichações não somente as apagando, mas transformando seus executores em artistas.
É claro que o graffiti vandal existe. Muitos se dedicam a execução de trow-ups, e os espalham pela cidade procurando lugares difíceis e proibidos com outdoors e carros e ainda alguns pintam trens ilegalmente apesar de estarem certamente correndo risco de vida já que o numero de seguranças é bem superior do que em outras partes do mundo porquê os salários são baixos e é mais lucroso pagar pessoas do que colocar maquinas em seus lugares. A vida no Brasil vale muito pouco e a violência é muito grande, os seguranças são armados e tem autoridade mesmo que ilegalmente para bater, espancar e até matar se for preciso. O risco de ser preso é muito inferior ao de ser morto e é por este motivo que a cultura vandal não é tão disseminada tendo como os pichadores o sinônimo principal para a questão do ilegal. São inúmeras as histórias de morte desses meninos além de agressões físicas e mentais como em uma matéria de jornal publicada a alguns anos atrás em que dois jovens afirmam que ao ser pego, ao contrário de serem presos e levado a julgamento como dita a constituição Brasileira, foram obrigados a beber a tinta do spray.
Em todo o percurso da arte no século XX caminhamos para a abstração e até mesmo para anti arte. O graffiti com toda sua rebeldia foi um movimento tão forte e marcante que ganhou o seu espaço na contemporânea apesar de ser composto essencialmente de imagens figurativas. Através da pichação e do graffiti vandal protesta contra a palavra arte por esta ser sinônimo da comercialização e distorção de valores do próprio graffiti através do capitalismo selvagem retomando através de suas ações a proposta da anti arte tendo como muito famosa a frase “ Artistas fazem dinheiro, pichadores fazem Arte”.
No Brasil, principalmente em São Paulo e em Minas temos grafiteiros que seguem uma linha abstrata contrariando essa conquista do graffiti como arte figurativa e usando conceitos do gestual e até psicodélicos em suas criações. No Rio temos um artista originário do subúrbio que começou a grafitando letras e hoje, totalmente abstrato, expõe em importantes galerias de arte e exporta suas obras para diversos lugares, Smael como é conhecido, não só aceitou a tela como suporte mas também geladeiras, carros, motos e tudo o que mais fosse encomendado por seus clientes usando o que aprendeu na rua como forma de sustendo dentro de nossa sociedade capitalista e mais uma vez abrindo espaço para velha questão do que hoje ainda pode ser considerado graffiti.
Hoje tanto no Rio quanto em São Paulo e assim como toda a Europa e EUA temos galerias especializadas na arte do graffiti e com isso acaba abrindo espaço a várias questões e manifestações sobre o que é válido ou não dentro do graffiti e a exploração desta palavra pela sua fácil comercialização.
Como pesquisadora desta arte, pessoalmente acredito que tudo que o que apareceu depois do graffiti nova-iorquino e vem se desenvolvendo nos principais centros urbanos do mundo pode ser considerado o “pós graffiti” que junta todas essas diferenças culturais em uma única grande cultura de rua que capitalista, estética, decorativa, política, conceitual ou até mesmo radical vem com toda força como uma das manifestações mais importantes da nossa arte atual.
Panmela Castro